domingo, 5 de outubro de 2008

Facundo


Imaginem como seria o Brasil se Euclides da Cunha, após escrever "Os Sertöes", se tornasse presidente da República e implementasse o melhor sistema de educaçäo pública do continente. Essa é uma analogia para entender o papel de Domingo Faustino Sarmiento na política argentina, em especial a partir de sua obra-prima, "Facundo".

Sarmiento fez parte da oposiçäo ao caudilho Juan Manuel de Rosas, que foi o líder político do país durante mais de duas décadas, no contexto turbulento da guerra civil entre unitários e federais. Sarmiento se exilou no Chile enquanto Rosas aprofundava o autoritarismo e desenvolvia uma política externa täo conflituosa que ao fim foi derrubado por uma coalizäo onde metade dos soldados eram do Império do Brasil.

Foi no exílio que Sarmiento escreveu "Facundo", que num primeiro olhar é a biografia do caudilho Juan Facundo Quiroga (o sujeito da imagem), um tirano que se apoderou da província de La Rioja e foi aliado de Rosas. Na realidade, o livro é muito mais do que isso: uma análise brilhante, e äs vezes cruel, das condiçöes sociais que levaram à instabilidade política e à violëncia na Argentina da primeira metade do século XIX.

Facundo é visto por Sarmiento como a personificaçäo dessas tendëncias selvagens, num contraste - por vezes muito forçado - entre civilizaçäo e barbárie, cidade e campo. Ao longo do livro, a figura de Facundo se confunde com a de Rosas, em termos políticos a obra é um panfleto poderoso contra este último.

É também um programa político de reforma: educaçäo, livre comércio, imigraçäo européia e reforma agrária. Sarmiento se tornou presidente cerca de 20 anos depois da publicaçäo do livro. Colocou quase toda sua agenda em prática, menos a distribuiçäo das terras, que nunca conseguiu a aprovaçäo da elite rural.

A ironia da história é que quando Sarmiento era presidente, foi publicado na Argentina o "Martin Fierro", de Jose Hernandéz. É uma ode ao gaucho, ao peäo do campo, o mesmo tipo social atacado por Sarmiento. Àquela época, um modo de vida já em extinçäo diante da modernizaçäo agrícola e da imigraçäo massiva.

"Facundo" e "Martin Fierro" continuam lado a lado como grandes clássicos da literatura argentina, embora expressem visöes distintas e talvez incompatíveis.
Esse texto foi postado por Mauricio Santoro em seu blog "os conspiradores", e eu achei o texto muito interessante, portanto resolvi colocá-lo em meu blog.